16 novembro 2006 

PÚBLICO suspende blog No Teatro Rivoli

O PÚBLICO suspendeu este blog e anulou os nomes de utilizador e palavras-chave criados em Outubro de 2006 para os ocupantes do Teatro Rivoli e para a Câmara Municipal do Porto.

20 outubro 2006 

Declaração Final

O Grupo de Ocupantes do Rivoli, ao cabo de 79 horas de permanência no interior do teatro municipal, declara o seguinte:

- Os ecos de apoio e incitação à resistência que recebemos, vindos um pouco de toda a parte, provam à saciedade que a nossa razão, a despeito da escalada das tentativas de silenciamento, foi ouvida, e que as nossas reivindicações, não obstante as sucessivas tentativas de calúnia e adulteração, encontraram um acolhimento muito expressivo por parte da população.

- A forma de luta que adoptámos, rotulada de ilegal, injuriada por todos quantos a qualificaram de agressiva, mostrou ser plenamente legítima, num contexto em que as camadas mais próximas dos problemas da criação artística não dispõem de armas de combate socio-laboral, sendo que, de resto, partilham esse handicap com um grande número de trabalhadores do terciário, “independentes” por obra e graça da precarização dominante no mercado do emprego.

- Incansavelmente repetimos as nossas reivindicações, que concebemos como um patamar mínimo para a manutenção do serviço público, a saber: a garantia de uma gestão do Rivoli não regida por critérios de pura rentabilidade; o acesso ao Rivoli garantido a todos os núcleos de criação artística em todas as artes; a garantia da existência de um serviço de formação continuada de públicos.

- Julgamos ter sabido argumentar contra a pretensa certeza de que o Rivoli está apenas sob a alçada da Câmara Municipal, contrapondo a esse infeliz refrão que se trata de um equipamento demasiado relevante, polivalente e bem equipado para ser propriedade de um executivo camarário, por muito que ele disponha da maioria absoluta. Acresce que uma funesta vitória dos desígnios de Rui Rio poderá encorajar outros autarcas a imitar este exemplo de demissão do poder camarário perante as responsabilidades de financiamento de cada teatro municipal. O Rivoli tem uma envergadura que lhe confere um grau de interesse não somente local, mas também nacional e europeu. O Presidente da C.M.P. tem, a todo o momento, demonstrado carecer de sensibilidade e conhecimento no que toca às questões culturais e à função social da cultura, e não possuir qualquer capacidade de escuta dos interlocutores que acerca destas questões o interpelam. Esta postura tem como consequência um divórcio criadores-governantes-população, fosso que urge colmatar. A vocação anti-despesista de Rui Rio não mais faz do que encobrir uma incompetência para gerir o Rivoli e, logicamente, a cidade. De resto, a inquietante falta de rosto dos nossos opositores – Culturporto e C.M.P. –, a par de uma actuação a todos títulos pidesca, constituem elas próprias matéria de reflexão, num estado que se diz “democrático” e “de direito”.

- Os Ocupantes do Pequeno Auditório saíram à força do seu posto de combate com uma queixa-crime em cima, sem que nunca tivessem merecido a menor explicação por parte dos poderes instituídos, os quais se limitaram a mandar recados através dos funcionários do Rivoli, transformados em “vigilantes” das ameaçadoras personagens bloqueadas no piso -1.

- Fazemos questão de frisar que, embora a abundante cobertura mediática nos tenha transformado em face visível da luta, nunca foi nossa intenção assumir protagonismo neste combate contra a voragem das privatizações que atingiu, desta vez, o Rivoli. Entendemos que toda a comunidade deve ocupar esse espaço de protagonismo numa luta que a todos diz respeito. Consideramos, por outro lado, que o nosso pequenino grupo de cidadãos indignados mostrou, com a ajuda incansável dos “ocupantes de fora”, que a imaginação, investida na invenção de novas formas de luta, é porventura mais eficiente em termos de tomada de consciência do que as negociações de corredor dos profissionais da política.

- Cabe-nos fazer um balanço destas 79 horas de ocupação, balanço esse que comporta pontos francamente positivos e aspectos menos exaltantes. Se podemos afirmar que o objectivo de chamar a atenção da opinião pública para o problema da alienação do espaço público e correlativo serviço público prestado pelo teatro municipal nos parece ter sido plenamente atingido, tanto ao nível da mobilização da comunidade como no plano da divulgação pela comunicação social (extremamente generosa, se bem que crescentemente focalizada no nosso suposto reality-show), não seria pertinente obliterar, ao nível do nosso segundo objectivo – o da chamada de atenção das autoridades para o escândalo deste processo precipitado, e dito “irreversível”, de “reconversão” do Rivoli, coerente que ele se revela com uma pretensa ordem “natural” das coisas numa sociedade do mercado – o nosso papel ainda não terminou. Pese embora a ausência de resultados conclusivos do nosso protesto nesse plano, abrimos ainda assim caminho a mediações e encontros que, esperamos, conduzirão, a bem de todos, a uma reavaliação das decisões tomadas muito ao de leve pela C.M.P.

Sentimo-nos no dever de participar na luta que doravante se alarga a todos os que, como nós, desejam remar contra a corrente, tentando por todos os meios potenciá-la.

Como noutra parte e hora já dissemos: não falemos da vitória, falemos antes da aprendizagem da luta e pela luta, bem como da sua necessária invenção, à medida que vão surgindo novos lutadores, dados e pistas.

O Grupo de Ocupantes do Pequeno Auditório do Rivoli

19 outubro 2006 

Mensagem dos Ocupantes

Estamos cá fora. Ainda estamos lá dentro, ou seja: dentro da luta.

Fomos forçados a sair por uma aparatosa operação policial que envolveu dezenas de agentes de várias especialidades e fardas uniformemente aceleradas. É preciso que se note que os polícias foram incomparavelmente mais correctos do que os nossos governantes.

Ao menos deram a cara e trataram-nos como gente.

A luta continua, bem como o trabalho de luta. Abancados frente a bebidas quentes, estamos a preparar a declaração final com a qual contamos dar conta das nossas acções, reacções e objectivos, bem como do estado das coisas na presente etapa.

A todos os que entenderam o significado político do nosso acto de desobediência e que aproveitaram estes dias para reflectir sobre a questão da alienação do serviço público e sobre a necessidade de inventar novas formas de luta, as nossas saudações poéticas.

VIVAM OS OCUPANTES DE FORA!

CONCENTRAÇÃO RESISTÊNCIA À HORA DO ALMOÇO - ENTRE AS 12H30 E AS 14HOO FRENTE AO RIVOLI.

GRANDE CONCENTRAÇÃO - MANIFESTAÇÃO - FESTA EM TORNO DA LEITURA DA DECLARAÇÃO FINAL DOS OCUPANTES DO RIVOLI - ÀS 19H45 FRENTE AO RIVOLI.

O Grupo dos Ocupantes do Rivoli Teatro Municipal

 

CONVITE

O TEATRO É DENTRO E FORA DE PORTAS.

A CIDADANIA É A TODO O MOMENTO.

QUEM SE SENTIR SOLIDÁRIO COM A OCUPAÇÃO PACÍFICA NO RIVOLI É CONVIDADA/DO PARA UMA GRANDE MANIFESTAÇÃO DE APOIO NA PRAÇA D.JOÃO I ÀS 20H00 DE 5 ª FEIRA
DIA 19 DE OUTUBRO.

(78 HORAS FECHADOS)


A LUTA DE UNS É A LUTA DE TODOS!


O Grupo de Ocupantes do Rivoli Teatro Municipal

18 outubro 2006 

Esta luta é de todos!

Numa altura em, quase 4 dias passados dentro do Rivoli, os meios de comunicação e a população em geral tem mostrado o seu apoio ao Grupo de Ocupantes do Rivoli (GOR), estes empenham-se por conseguir dialogar com as autoridades politicas sobre as motivações que levaram a este acto. O blog esgotou-se, a opinião pública está em vias de se esgotar, a “guerra fria” declarada pelo Dr. Rui Rio está em vias de surtir efeito (sem forma de subsistência o GOR terá de abandonar a instalações do Teatro). Por outro lado, como tantas vezes em Portugal, a discussão cairá no vazio, assim que, cansados de apanhar chuva os apoiantes forem para casa, e cansados do piso -1 os ocupantes se entregarem às autoridades (as quais já têm indicações do tratamento legal a dar ao 25 elementos).
Esta é uma questão Pública e Social transversal a todo o país. A classe de trabalhadores ligados ao espectáculo (noutros países designada para efeitos legais de “intermitentes do espectáculo”) não está suficientemente empenhada em trazer esta situação à actualidade politica. Infelizmente, a situação dos trabalhadores do espectáculo não consta com frequência da agenda politica do pais. É um escândalo? Será normal numa altura em que temos vindo a “apertar o cinto”. No entanto, o pais não poderá desenvolver-se sem que garanta uma actividade cultural semelhante à dos seus “países modelo”. Esta é uma discussão que deveria interessar a TODOS os trabalhadores do espectáculo (bem-sucedidos ou não), a TODOS quantos usufruam ou queiram usufruir de uma oferta cultural plural, saudável e competitiva. Todos partilham das mesmas dificuldades, todos partilham da carência de uma politica cultural que lhes permita desenvolverem as suas actividades sem terem de recorrer a estratégias de sobrevivência.
A questão não se resume à privatização do Teatro Rivoli! A questão toda a classe de trabalhadores do espectáculo, e esses, deviam neste momento apontar as suas criticas, apoiar o GOR, exercer as suas formas de resistência (democraticamente previstas!), aproveitar a exposição pública deste caso para exporem publicamente o seu desagrado perante a ausência de condições no desenvolvimento dos seus empregos.
Fechar o Rivoli não é uma forma de “dar nas vistas” gratuita, é a forma que actores e públicos arranjaram de se expressar, a única possível. Todas as classes profissionais vêem previstas as suas formas de resistência os professores ontem e hoje o provaram, como têm vindo a provar neste ano conturbado para a educação, os trabalhadores das fábricas fecham portas quando ameaçados de estas serem mobilizadas, os transportes param e as cidades ficam um caos quando querem melhores condições de trabalho. Os trabalhadores do espectáculo não possuem ferramentas que lhes permitam alertar a sociedade para os problemas da classe. É de louvar que, desta vez, tenham conseguido chegar aos meios de comunicação.
Neste momento, o GOR quer dialogar com a Câmara Municipal do Porto, mas quer também ser ouvido pelo Ministério da Cultura, não apenas relativamente à questão da privatização do Rivoli mas para expressar toda a instabilidade que a classe está a viver, para exigir que a agenda do Ministério contemple a resolução dessa instabilidade.

Pede-se a todos quantos queiram ajudar que enviem e-mails ou telefonem para Câmara Municipal do Porto e principalmente para o Ministério da Cultura solicitando que o Grupo de Ocupantes do Rivoli seja ouvido, para os contactos em baixo mencionados:
Culturporto:

culturporto@culturporto.pt

Câmara Municipal do Porto:

gabinete.municipe@cm-porto.pt
smac.gm@cm-porto.pt
Tel.: 22 209 70 00 (extensão 3140)

Ministério da Cultura:

infocultura@min-cultura.pt

Leonor Losa

17 outubro 2006 

17:00 h 17Out2006

O Grupo de Ocupantes que se encontra fechado no Teatro Municipal Rivoli está neste momento incontactável. As portas do edifício permanecem fechas, mas, ao contrario do que até esta manhã se verificava, neste momento, é impossível aos manifestantes terem contacto físico com exterior. A electricidade foi integralmente cortada, sendo neste momento impossível o acesso a computadores ou televisão, estando por isso privados de comunicar com o exterior. Sabe-se entretanto, que a Câmara Municipal do Porto instaurou uma queixa-crime contra os ocupantes, alegando Invasão Indevida.
Apela-se a todos que divulguem a situação através dos meios de comunicação possíveis e que manifestem o seu apoio frente à porta lateral do Teatro Municipal Rivoli ou declarando publicamente o seu apoio à causa dos ocupantes.

 

Forum Rivolivre

Foi também criado por um 'ocupante externo' um forum relativo a esta questão.
Não é necessário qualquer tipo de registo ou informação pessoal, para criar ou responder aos tópicos nele existentes.

A morada:

http://rivoli.no-ip.org

O Grupo dos Ocupantes do Rivoli

 

Às 15 horas do dia 17 de Outubro

Após contacto telefónico com o interior do teatro, foi facultada a informação de que neste momento o Grupo de Ocupantes do Teatro Rivoli encontra-se completamente fechado dentro do edifício, isto é, já nem a porta lateral se encontra aberta, e foi também procedido o corte de electricidade no espaço que estes ocupam.
Estão assim desprovidos de qualquer contacto verbal com o exterior, bem como do uso e consulta da internet.



Grupo dos Ocupantes do Teatro Rivoli ( que estão cá fora)

 

Desta vez, para variar, quem está fora não racha lenha


Amigo OCUPANTE de fora
Tu que sorris tão-só e passas, desaparecendo noutra multidão
Tu que ficaste a casa a tomar conta das horas que passam
Tu que te quedas a falar como se o mundo parasse à nossa porta
Tu que trazes a família a passear e todos aproveitam para um banho de luta
Tu que passas maçãs pelas grades e de paraíso nos alimentas
Tu que ainda não nos percebeste mas queres a todo o custo perceber
Tu que bebeste à nossa saúde e assim nos embriagaste à distância
Tu que tinhas a barriga maior que os olhos e a ofereceste para nos carregar
Tu a quem o trabalho humilha e nos deste tuas poucas horas de ócio
Tu que trouxeste a bandeira no bolso e a trocaste por duas horas de troca
Tu que nem tanto ao mar nem tanto à terra e agora somente tempestade
Tu que vento semeias e vento colhes para que o ar se respire
Tu que saíste aperaltada e voltaste desfeita como que acabada de nascer
Tu que vieste ao engano e voltaste mais verdadeiro
Tu que trouxeste as tuas sobras de esperança e eram um banquete
Tu que quiseste a noite branca e de manhã choravas por mais
Tu que em vale de lençóis nos concedeste vidas nunca vividas
Tu e tu e tu e tu e tu e tu e tu e tu e tu e tu e tu e tu
Ocupa a rua como nós ocupámos este nosso teatro
Pinta a manta e a macaca pinta a negro pinta o sete pinta-te a ti e aos outros
Canta para o mal espantar para acordar animar embalar protestar discordar
Toca o sino e a trompete toca tambor clarinete toca a caixa e troca o mundo
Dança a roda dança a salsa dança o tango dança a valsa baila gira salta pula
Faz figas e faz de conta faz a sério ou a brincar faz mais para o mundo mudar
Troca tintas troca passos troca cartas troca abraços troca cromos e heróis
E, pelo meio, vem até trocar umas ideias, impressões, sensações connosco

Até já, até sempre
O Grupo de Ocupantes do Rivoli Teatro Municipal

 

16h15

Fecharam a porta de acesso ao camarim com chuveiro.
Mais ninguém toma banho.
mais restrito o nosso espaço.

Carolina Losa

 

15h05

Fecharam as portas de vidro da entrada lateral que nos permitia o contacto como exterior.
A partir deste momento não entra comida (ou qualquer outra coisa).
Desligaram a corrente das tomadas.
Em breve as baterias dos telemóveis e do portátil em que escrevo irão acabar.

Carolina Losa

 

Novas regras de publicação neste blog

O blog No Teatro Rivoli foi criado pelo PÚBLICO com o objectivo de fornecer mais uma plataforma para a discussão do caso do Rivoli (o seu funcionamento e financiamento, eventual privatização, posição da CMP, etc).

De forma a facilitar a leitura da situação foram criados dois “utilizadores virtuais”: um chamado Dentro do Rivoli, que se pretendia que reunisse as posições dos ocupantes do Teatro (ainda que cada post devesse ter, além dessa assinatura, uma identificação individual) e outro “utilizador virtual” chamado Fora do Rivoli, que deveria reunir as posições do público em geral.

A vantagem de criar identidades virtuais como estas e de lhes dar privilégios de membro do blog é a visibilidade dos posts – ao invés dos comentários, que apenas estão acessíveis se se clicar num link.

A desvantagem é que, ao conceder esses privilégios, se concede também a esse “utilizador virtual” a capacidade de alterar os “seus” posts – entenda-se: posts do mesmo “utilizador virtual”, que podem ser de facto de um outro utilizador individual.

Quisemos experimentar o sistema para garantir a visibilidade das mensagens de todos e por uma questão de equidade, apesar dos seus riscos, mas o que podia acontecer aconteceu: houve posts apagados ou alterados por utilizadores menos escrupulosos e com menor sentido da intervenção cívica e do debate público.

Decidimos assim anular o utilizador “Fora do Rivoli” e permitir aos visitantes deste blog apenas o recurso ao comentário dos posts de outrem.

Para respeitar o dever de equidade, o PUBLICO.PT convidou também a Câmara Municipal do Porto a participar neste blog. Os dados de utilizador e a password já foram fornecidos ao Gabinete de Comunicação da autarquia.

José Vítor Malheiros
Director do Publico.pt

 

Rivoli

Os manifestantes que "sitiaram" o Rivoli ilustram bem o espírito da cultura portuguesa.
Atente-se que o Rivoli não vai ser vendido nem vai ver o seu estatuto de equipamento cultural alterado, como sucedeu há uns anos com o Coliseu. Nem, em momento algum, foi dito àqueles que lá estão que nunca mais poderiam exibir as suas obras e criações naquele espaço.
A câmara municipal do Porto apenas alterou o modelo de gestão, passando-o para as mãos privadas. Mas, mesmo esse modelo de gestão e as suas implicações não estão definidos, uma vez que ainda está a decorrer o concurso público com vista à sua adjudicação.
O que apavora os "agentes culturais" que se encontram fechados no Rivoli é a simples perspectiva de ver a sua obra apreciada e avaliada por pessoas normais, sem os falsos elitismos ou aparentes erudições, habitualmente discutidos e declarados com força obrigatória geral nas recônditas reuniões de velhos amigos e conhecidos e que remetem imediatamente para a categoria de ignorantes e incultos aqueles que não conseguem vislumbrar tamanha genialidade.
É óbvio que a cultura tem especificidades que devem ser discutidas e protegidas, mas nenhuma outra actividade convive tão bem com a crónica dependência de subsídios e a falta de adesão de público, que, muitas vezes, até chega a ser vista pelos criadores como mais uma prova do seu incompreendido brilhantismo.

por Pedro C. Azevedo às 14:32

 

Acabou-se o "chulanço"...


"Isto é um espectáculo"... diriamos muitos de nós aquando o confronto de tal noticia.

Acho que o que dá hoje em dia é barricar dentro de instalações sempre que não estivermos de acordo com algo...
"Esta greve de fome já me está a dar larica" comentamos, "acordem-me lá prás 12h" afirmamos dentro do Rivoli.
Se soubesse o que sei hoje instalava-me numa casa abandonada ou num terreno baldio como os ciganos e chamava TVIs para fazerem um filme triste da minha vida, desta maneira o Governo tinha que me arranjar uma casa de borla. É simples, eu que trabalho todos os dias 8 (ou mais) horas por dia, pago os meus impostos, cumpro os meus deveres e dou lucro tanto à minha empresa como ao estado (e a parte do estado não é pequena) tenho que estar 40 ou 50 anos da vida a pagar uma casa enquanto estes parasitas recebem casas sem levantar um dedo e muitos deles, graças a negócios obscuros, ganham mais que eu sem declarar nada.

Eu digo FIM AOS PARASITAS, fim a esses escroques da sociedade que só sabem lamentar-se de como a vida corre mal... Parasitas ..::ACORDEM::.. a vida está mal para todos só que uns, em vez de se lamentarem a pedirem ajuda a tudo e todos sem fazerem nada para mudar a situação, resolvem agir e lutar.

Querem o dinheiro dos meus impostos??!! Já dizia o Zé povinho ... ... TOMEM!!!! O dinheiro é pra ser usado onde é preciso e não onde os parasitas querem!!
1 conselho ... em vez de aparecerem todos os dias no teatro ás 10h30 - 11h da manhã (como dizia uma pretensa "actriz" no telejornal) tentem arranjar um emprego e trabalhar (se não for pedir muito) de forma a contribuirem para algumas borradas do governo, não obstante, ajudando a vossa pátria de uma forma produtiva.
Não digo com isto que não se deva estudar! Estudar sim mas não durante 8 anos em cursos que duram 4 e que não interessam nada à situação actual do país!!

PARABÉNS DR. RUI RIO finalmente o Porto tem um dirigente de que se pode orgulhar, fazendo realmente o que é melhor para a cidade, se continuar assim que fique durante muitos e longos anos!!

RIVOLI Privado = auto-financiamento a médio prazo + Isenção de gestão + Medidas de sanemaneto financeiro

Ou seja quem trabalha fica, quem pastela sai.

Como disse antes, "muito simples"...

Ass. Portuense

 

Não entendo como se tolera estes actos ilegais. Deveriam era «negociar» com a polícia.

Se isto continuar, pode ser que se organize uma manifestação às portas do Rivoli, a favor da privatização da gestão do Rivoli. Para que todo dinheiro público que lá se gastou seja minimamente rentabilizado. Para atingir o tal serviço público.

E, já agora, pelo respeito da LEI. Pequena coisa...


André Silva

 

Agora,

Que todos dormem, após a sua jornada cansativa de luta, e os contribuintes de toda a cidade acordam para trabalhar, aproveito a repôr a questão no seu ponto essencial:

"Só o Rivoli custou à Câmara 11 milhões de euros; 1500 contos por dia. E apenas cobriu com a bilheteira, 6% das suas despesas. O resto, 94%, foi pago pela Câmara ou seja, pelos contribuintes.
É pois esta a realidade que deu origem a toda a polémica.
Entre a hipocrisia, a histeria dos subsidio-dependentes, os fretes jornalísticos e, acima de tudo, o desprezo pela forma como se gasta o dinheiro público, de tudo voltamos a ver um pouco nesta polémica."

O Porto genuíno, o Porto que faz das tripas coração, empreendor, dinâmico e granítico não foi feito de pessoas como as que protestam neste momento Rivoli. Foi feito apesar delas. E está a renascer.

Apesar de todos os que se julgam acima de todos os outros no pensar e sentir. Viva a liberdade de utilizar o Rivoli por quem não tem poder de decisão nos meios culturais subsidiados.

 

Já gastei o orçamento todo para a cultura!!!

 

Rui Rio junta-se aos manifestantes no Rivoli


ULTIMA HORA!!

Rui Rio decide juntar-se aos manifestantes e prepara-se para passar o resto da noite dentro do Teatro Rivoli.

(o Sr Daniel, caseiro do teatro, cedeu a sua cama ao presidente)

 


(02:39) Os manifestantes garantem que o concerto de beneficência de Luís Represas marcado para hoje se vai realizar.

Francisco Alves diz que a Câmara está a aproveitar um concerto de solidariedade para forçar a saída dos barricados e acrescenta que se o concerto não acontecer a culpa é da autarquia.

"O espaço que nós estamos a ocupar não interfere minimamente com a realização do concerto. Isto já foi dito ao Luís Represas, ele percebe isto perfeitamente. Isto é uma manobra de chantagem e de intimidação. Por nossa vontade o concerto vai realizar-se, esperemos que se realize e seja um enorme sucesso. Se não se realizar, a culpa é desta Câmara, é desta vereação e da direcção deste teatro", refere.

De recordar que este grupo de pessoas contesta a entrega da gestão do Teatro Rivoli a privADOS

 


Contra a privatização do espaço
Cerca de 40 manifestantes ocupam o teatro Rivoli
16.10.2006 - 08h19 Lusa


Cerca de 40 pessoas passaram a noite e continuam esta manhã no interior do
teatro Rivoli, no Porto, onde estão a realizar uma "ocupação simbólica". Os
manifestantes exigem falar com a Câmara do Porto contra a intenção da
autarquia de privatizar aquele espaço, até aqui gerido pela Cultuporto.

A manifestação iniciou-se depois da exibição da peça "Curto-Circuito", da
companhia Teatro Plástico, no pequeno auditório, entre espectadores e
artistas, num protesto convocado pela companhia.

A autora da Peça, Regina Guimarães, que também se juntou ao protesto,
explicou à Lusa que o objectivo, além de protestar contra a intenção da
Câmara liderada por Rui Rio (PSD), é também evitar que o cenário se repita
em outras zonas de Portugal.

"Se não fizermos isto, outras autarquias acabarão por fazer o mesmo com
equipamentos similares", disse.

Os manifestantes decidiram permanecer no edifício apesar da decisão da Câmara
de mandar encerrar as portas às 01h20.

A decisão da Câmara Municipal do Porto foi transmitida aos manifestantes por
Fernando Pinheiro, produtor da Culturporto, a associação que actualmente gere
aquele espaço cultural.

Antes de ter sido anunciada a decisão, o responsável pela segurança do Rivoli
tinha acusado os manifestantes de "estarem a gozar" com o trabalho dos
funcionários, aconselhando-os a prosseguir o protesto no exterior do
edifício, sem o que seria necessário "tomar medidas".

"Pois então que tomem", foi a resposta dos manifestantes, que se recusaram a
abandonar o local.

Entre os espectadores circulava um documento com críticas ao presidente da
câmara, por defender "uma ideia de um teatro regido por critérios de
rentabilidade", atitude que os autores do manifesto consideram "assaz curiosa
para quem esbanja dinheiros públicos em corridas de automóveis". O texto
refere-se à reedição, no ano passado, do Grande Prémio do Porto, no
Circuito da Boavista, um evento que não se realizava desde os anos 60.

O documento pede garantias de que "o teatro não seja gerido e programado em
função da maior ou menor rentabilidade", de que "os núcleos de produção da
cidade do Porto, em todos os domínios da criação, tenham acesso e lugar no
seu teatro municipal" e de que "a direcção do teatro pugnará pela formação
contínua do público.

 


DIREITO À ARTE
Quem tem medo da livre difusão cultural
Um debate na Assembléia Nacional francesa revela: em defesa de seus lucros, as transnacionais do "showbusiness" e do "software" propõem impedir a circulação não-mercantil de obras artísticas pela internet

Philippe Aigrain
Nada haveria meio-termo entre o controle absoluto da circulação de cultura e o "comunismo" odiado por Bill Gates?

"Uma espécie de comunistas, atualizados, quer suprimir os estímulos materiais destinados aos músicos, aos cineastas e aos programadores", adverte Bill Gates em uma entrevista, em janeiro de 2005 [1]. Desde então, esta opinião vem sendo retomada pelos exércitos de lobistas que reclamam a ampliação do campo de aplicação da propriedade intelectual.

Nada haveria meio-termo algum entre uma visão expansionista da propriedade intelectual e o "comunismo"? Deve a cultura escolher entre a vigilância implacável de suas utilizações, (por meio de tecnologia e polícias privadas) e um regime burocrático de economia administrada? Ou entre uma gratuidade que destruiria a criação e a maximização do lucro, retirado de cada utilização de cada obra? É o que se poderia crer, lendo a maioria dos comentários que invadiram as páginas de debate e os editoriais dos jornais diários franceses depois da votação-surpresa do 21 de dezembro de 2005 na Assembléia Nacional.

Nesse dia, uma coalizão inusitada, formada pela esquerda socialista e comunista, os Verdes e uma parte da União para um Movimento Popular (UMP) dirigida por Bernard Carayon e Christine Boutin, aprovou, contra a vontade do governo, uma emenda propondo um mecanismo de licença legal para o acesso às obras na Internet.

Os deputados debateram a lei "Direitos Autorais e Direitos Fronteiriços na Sociedade da Informação" - Dadvsi. Este texto supõe transpor para o direito francês a diretriz européia homônima (2001/29/CE) [2]. Um dos pontos em jogo é a definição do quadro jurídico no qual se inserem os programas e os chips especiais para o controle do acesso às obras. Seria proibido contornar estas "medidas técnicas de proteção" (MTP), que podem, por exemplo, proibir a leitura de um DVD em uma plataforma não autorizada - ou até mesmo analisar seu funcionamento. O Dadvsi também deve determinar as exceções suplementares dos direitos autorais reconhecidos para diversos usos (pesquisa, educação, crítica, deficiência, etc) e especificar como o exercício desses direitos de uso será efetivo, no caso em que medidas técnicas impeçam beneficiar-se diretamente de seu uso. Os que leram o texto da emenda aprovada de surpresa a 21 de dezembro terão dificuldade em compreender por que ela desencadeou a invocação das alternativas maniqueístas listadas mais acima.
Felizmente, diante dos lobbies, uma vasta rede de cidadãos e de atores culturais defende uma visão mais ambiciosa para a cultura
As alternativas que se quer ocultar

E se estiver em jogo algo que nata tem a ver com estas oposições? E se, ao contrário, existir um enorme leque de alternativas para remuneração dos criadores, liberdade de acesso e relação com as obras e garantia da diversidade cultural, que só começam a se desenhar precisamente quando nos recusamos a pensar a partir dos preconceitos? Talvez seja exatamente isso o que dá medo. Em todo caso, os 145 mil cidadãos que subscreveram a iniciativa da EUCF.info [3], e os 14 mil artistas signatários da moção da Spedidam [4], tiveram motivos para pedir o adiamento da votação para depois de uma discussão aprofundada. E de protestar contra a imposição, pelo governo, de um procedimento de urgência.

Que alcance político pode guiar as escolhas que devem ser feitas? Nesse plano, há uma incompreensão absoluta entre os gestores do processo no ministério francês da Cultura e a surpreendente reunião de inovadores, criadores, atores das políticas culturais de base e "cidadãos comuns", que sugerem uma orientação diferente para o projeto de lei. De um lado, a ortodoxia incestuosa construída há vinte anos entre os grupos de interesse dos detentores de estoques de direitos [5] e uma pequena casta de juristas especializados — ortodoxia sistematicamente conduzida pelos altos funcionários encarregados desse tema no Ministério. Esta orientação pode contar com uma sólida maioria no Conselho Superior da Propriedade Literária e Artística (CSPLA), a comissão que desde 2000, tem a atribuição de aconselhar o governo sobre as questões de propriedade literária e artística.

Pena que as orientações propostas por esse grupo se oponham radicalmente à realização das missões do Ministério. O ministro, Renaud Donnedieu de Vabres, recusa a criação de exceções para a pesquisa e o ensino ou para as bibliotecas e condena os programas de digitalização de arquivos educativos e culturais - nos quais investem-se milhões de euros, há vinte anos. O Parlamento o acompanhou, rejeitando as emendas que previam essas exceções, ainda que elas sejam devidamente autorizadas pela diretriz que está sendo transposta. Aí está a votação que deveria suscitar editoriais indignados dos tenores da cultura... mas há silêncio. Felizmente, diante dos lobbies [6], um tecido bem rico de cidadãos e de atores culturais defende uma visão mais ambiciosa para a cultura.

Há coisa mais grave. O ministro francês da Cultura também se opôs, com um sucesso que se espera provisório, à votação de uma emenda que esclareceria que o direito de citação se aplica a todos os tipos de obras, especialmente audiovisuais. Um dispositivo desse tipo foi adotado na transposição alemã da mesma diretriz européia. Ora, trata-se de uma questão essencial: os cidadãos têm o direito, por exemplo, de divulgar em seu blog, trechos em vídeo de um programa de televisão, ainda que para apoiar a afirmação de que a apresentação repetida de casos de polícia e a ordem dos assuntos nos jornais influenciam a opinião?
Tornar a priori impossíveis o intercâmbio e o tratamento da informação é tentar para um rio com as mãos, chamar um policial tecnológico para cada gota de água
A polícia eletrônica das transnacionais

Quando o Estado se transforma em oficina de prevenção da cessação de lucros, a inquietação não vem tanto do fato de que ele patrocina as preferências das indústrias culturais ou tecnológicas, mas sim, de não ter mais política para a cultura. Há meses, o ministro Donnedieu de Vabres declara alto e bom som que não quer de modo algum prejudicar os softwares livres, nem atrapalhar a expressão deles na Internet, nem atentar contra a proteção de dados. Isto não o impediu de deixar a CSPLA patrocinar uma emenda redigida pela Vivendi-Universal [7] que prevê a ilegalidade da Internet, da Web e de todos os outros instrumentos de troca de arquivos não possuidores de medidas técnicas de proteção que garantam as restrições previstas de acesso e de uso das obras.

Esta emenda parlamentar foi apresentada pela UMP e pela UDF. Por seu lado, o Ministro da Cultura propôs, durante o debate diante da Assembléia, uma série de medidas que instituem uma "reação graduada" no caso de compartilhamento de arquivos que os detentores de direitos julguem ilícitos. Estes dispositivos visam empregar polícias (de vigilância dos usos dos internautas) e uma "justiça" (sob forma de sanções automáticas sem processo), as duas privadas. É provável que a emenda Vivendi-Universal/CSPLA e a "reação graduada" (certamente inconstitucional) sejam sacrificadas no altar da "moderação". Mas pode-se temer que a filosofia que tornou essas aberrações possíveis dê à luz novas emendas do mesmo tipo.

Os modelos comerciais baseados na organização tecnológia de uma raridade artificial só podem sobreviver se destróem todo o potencial social e cultural das técnicas da informação. Querer definir e controlar, por meio da tecnologia, aquilo que é ou não legítimo; tornar ilegal o que permitiria outras utilizações; tornar a priori impossíveis o intercâmbio e o tratamento da informação é tentar para um rio com as mãos, chamar um policial tecnológico para cada gota de água. Não será suficiente tornar ilegais os softwares livres. Será preciso, como prevê um recente projeto de lei norte-americano [8], proibir qualquer sistema capaz de digitalizar imagens e sons (da fotocopiadora ao gravador...) que não contenha dispositivos que reconheçam e apliquem as restrições previstas em favor dos potenciais detentores de direitos destas imagens e destes sons.

Em outras palavras, todos os que entrarem no jogo do intercâmbio livre e da confiança entre usuários e criadores deverão curvar-se às restrições e trabalhar com instrumentos concebidos por inquisidores, que igualam todo cidadão a um ladrão herético. Aceitar esta filosofia traz o risco de nos relegar, por décadas, em matéria de informações e mídia temporal (som e imagem animada), ao tempo dos escribas. Seria estranho o fato de tal perspectiva não entusiasmar a parcela cada vez maior da população francesa [9] que experimenta a extraordinária liberdade de se expressar para o público em geral — e todos aqueles que já se beneficiam das idéias e criações de tantos autores novos?
Diferença fundamental entre as duas propostas: o exame da legitimidade da utilização não se transfere da Justiça para aparelhos controlados por um punhado de multinacionais
Proteger os criadores sem impedir que a criação circule

Isto quer dizer que tudo deve ser permitido e gratuito? Nem uma coisa nem outra: a forma de receber os direitos e a maneira de remunerar os criadores não devem destruir o potencial de um mundo de abundância de fontes de expressão e criação. O que disparou o furor, na emenda que cria parte de uma licença legal, é que ela ressaltava a existência de soluções alternativas, ao mesmo tempo simples e capazes de garantir ao conjunto dos criadores rendimentos pelo menos equivalentes aos que eles auferem hoje. Essas alternativas repousam na socialização do financiamento da remuneração dos criadores, sem contradizer um princípio fundamental do direito autoral — isto é, que o grau da remuneração depende das escolhas do público de ouvir ou ver uma coisa e não outra.

Diferença fundamental entre as medidas técnicas de proteção (MTP) e sistema de gestão de direitos numéricos (DRM): o exame da legitimidade da utilização não se transfere dos juízes para aparelhos controlados por um punhado de multinacionais. De resto, nenhuma necessidade de vigiar a utilização individual: uma análise do tráfego de rede permitiria medi-la. Soluções desse tipo já existem em vários campos (cópia privada, rádio), ainda que de modo injusto e limitado, já que os criadores de obras de livre acesso não se beneficiam delas e elas só se aplicam a atividades sem impacto positivo de trocas por Internet. A rede deveria, mais tarde, permitir às comunidades de criação e de compartilhamento, elaborar mecanismos mais justos que exprimissem a nova qualidade de relação entre o público e os artistas. A licença global escapará da armadilha dessa vez? Seria apenas adiar a disputa, pois seja qual for a decisão da Assembléia Nacional francesa, o projeto subjacente à emenda contestada não desaparecerá. É a proposta de um mundo onde muitos se dirigem a muitos, criam, atingem um grande público e beneficiam-se das criações de uma multidão de fontes. Nesse mundo, os títulos de impacto subsistirão, mas será mais difícil para os majors fazerem deles uma engenharia prévia.

Produziremos sempre obras de qualidade e encontraremos sempre editores para as reconhecerem e ajudar a lançá-las. Nesse mundo, serão um pouco menos os que viverão de direitos autorais, mas haverá sempre trabalho para os artistas, os produtores, os editores... e os juristas.

(Trad.: Elisabete de Almeida)

 

Rivoli: Incoerências de «Esquerda»

Artigo de Rui Rio, Presidente da Câmara Municipal do Porto, acessível aqui.

Em Portugal, a despesa pública representa cerca de 50% da produção nacional, sem entrar em linha de conta com os défices visíveis e invisíveis das diversas empresas públicas. Chegamos a este ponto, porque apesar de haver consciência do problema em largos sectores da sociedade, quem assume cargos políticos não tem, normalmente, a coragem de fazer uma verdadeira racionalização estrutural dos gastos do Estado.
Está provado que a evolução negativa que o regime democrático sofreu, com um preocupante enfraquecimento do poder político legitimamente eleito, levou a que o Estado tivesse cedido a entrar em demasiados domínios que não lhe deviam dizer respeito. Dessa forma, asfixiou a denominada sociedade civil, acumulou défices sucessivos e foi aumentando os impostos de uma forma absurda e improdutiva. A agravar, temos todos consciência que, na maioria dos domínios em que lhe compete actuar, o Estado não é competente e presta, normalmente, um serviço caro, insuficiente e de qualidade inferior.
Por isso, quem estiver consciente destes estrangulamentos e se dispuser a assumir um cargo de responsabilidade política, tem a obrigação de ter a coragem necessária para procurar inverter esta grave situação e aumentar o potencial de desenvolvimento da nossa sociedade. Foi essa falta de coragem que levou a uma permanente cedência perante os interesses sectoriais e corporativos em presença e que, por consequência, atirou Portugal para o seu progressivo afastamento da União Europeia e para a degradação do nosso nível de vida, com particular reflexo nos extractos sociais mais desfavorecidos
Tive oportunidade de repetir este discurso vezes sem conta na Assembleia da República. Julgo que não terá valido de muito, mas, uma vez na Presidência da segunda cidade do País, tenho a obrigação de ser coerente e de não temer as criticas.

A verdade que devemos conhecer

Foi por isso, que o Executivo portuense decidiu entregar a gestão do Rivoli a uma entidade privada. No meio de alguma mentira que foi escrita e de muita verdade que foi escondida, julgo que faz todo o sentido que, apesar do regime vigente, o Presidente da Cidade do Porto, também tenha algum espaço para explicar as razões da decisão.
Seria bom que se soubesse que a Câmara do Porto gastou, no meu anterior mandato, 13,5 milhões de euros com os dois teatros municipais, o Rivoli e o Campo Alegre. Seria bom que as pessoas tivessem acesso a esta informação complementar : que, no mesmo período de tempo, gastou 5,5 milhões a reabilitar escolas, 6,9 milhões com a acção social, 6,5 milhões com a manutenção de todos os equipamentos desportivos e a promoção da pratica desportiva. Números do meu anterior mandato, porque se recuasse mais no tempo o cenário seria bem mais desagradável.
Só o Rivoli custou à Câmara 11 milhões de euros; 1500 contos por dia. E apenas cobriu com a bilheteira, 6% das suas despesas. O resto, 94%, foi pago pela Câmara ou seja, pelos contribuintes.
É pois esta a realidade que deu origem a toda a polémica.
Entre a hipocrisia, a histeria dos subsidio-dependentes, os fretes jornalísticos e, acima de tudo, o desprezo pela forma como se gasta o dinheiro público, de tudo voltamos a ver um pouco nesta polémica.
Fui eleito para cumprir o meu projecto e não o dos que perderam. Se fizesse o contrário estaria, cobardemente, a trair quem em mim votou.
A minha primeira prioridade é a Coesão Social; que se faz com investimento em áreas estratégicas que há muito defini e que, com clareza, submeti ao sufrágio dos portuenses. Não se faz gastando mais do dobro em espectáculos sem público, do que o que se investe na reabilitação de escolas ou na intervenção social.
Os que nos jornais e na Assembleia da República têm criticado os 1,8 milhões de euros que a Câmara despendeu com o seu programa Porto Feliz de combate à exclusão social, dizendo que é muito dinheiro, são exactamente os mesmos que, em paralelo, querem continuar a gastar, pelo menos, 11 milhões num teatro incapaz de gerar receita própria e de se abrir a toda a cidade.
Será, no entanto, gente que, sobre isto, tem um argumento mediaticamente fulminante que arrasa tudo o que aqui escrevi: «o Rui Rio não passa de um inculto economicista e nós, como somos de «esquerda», não admitimos que se duvide que estamos sempre do lado dos pobres.»

 

NO RIVOLI

 

Conflito com Autarquia ou com contribuintes?

Transcrição integral do post de Tavares Moreira, publicado no blogue 4R - Quarta República.

Achei curiosa a notícia da ocupação do Teatro Rivoli, no Porto, iniciada ontem à noite, após a representação da peça “Curto-Circuito”, da Companhia “Teatro de Plástico”.
Ao que é noticiado, essa heróica iniciativa foi capitaneada pelo director da “Teatro de Plástico”, nela tendo participado actores da Companhia, convidados e algumas das (heróicas) pessoas que teriam assistido à representação, num total de 44 pessoas.
Esta ocupação é uma forma “simbólica” de protesto contra a decisão da Câmara do Porto de entregar a exploração do Teatro a uma entidade privada.
A Teatro de Plástico será, com certeza, uma das entidades que se sente em risco perante esse cenário de privatização da gestão.
Esse risco, muito provavelmente, consistirá na impossibilidade de continuar a utilizar o teatro “mais do que gratuitamente”.
“Mais do que gratuitamente”, significa a utilização das instalações sem custo, acrescendo o recebimento de um subsídio, pago pelo Estado e/ou Autarquia para a produção das peças de teatro apresentadas.
O que não posso dizer, porque não sei, é o número médio de espectadores nas peças levadas à cena pela “Teatro de Plástico” mas, de acordo com estatísticas há pouco tempo divulgadas acerca do nº de espectadores para produções artísticas semelhantes, deve ser muito baixo.
Se no número de aderentes à ocupação se incluem como é noticiado, artistas, convidados e espectadores (ainda que não todos, com certeza), o total de 44 sugere alguma coisa.
Qualquer comparação com os espectadores das peças produzidas por Filipe La Feria deve ser aterradora.
Bem sei que La Feria produz um teatro que não é verdadeira cultura, na opinião dos titulares da autêntica cultura, daquela que nós subsidiamos com os impostos (baixos, segundo Tonibler) que pagamos.
A verdadeira cultura teatral, segundo esses entendidos, é a subsidiada. A que se vende não pode ser cultura, a venda retira-lhe a autenticidade, conspurca-a.
Neste caso do Rivoli, a exploração directa do teatro pela Autarquia, de acordo com números divulgados pelo seu Presidente, Rui Rio, custa ao Estado 7.500 euros/dia, ou seja 2.737.500 euros/ano.
Segundo a mesma fonte, as receitas do Teatro, no modelo de exploração actual, cobrem 6% das despesas.
Não me parece que nas despesas estejam incluídas as amortizações do equipamento, que são custos embora não sejam despesas, bem como as grandes reparações que de N em N anos se impõem num equipamento com estas características.
Temos pois a ocupação do Rivoli, por um grupo de heróicos defensores da “cultura” mas bem pouco amigo dos heróicos contribuintes.
Pareceu-me pouco feliz a reacção da Ministra da Cultura, com uma posição muito ambígua, não condenando a ocupação, oferecendo-se para mediar o “conflito” e limitando-se a dizer “ O que é preciso é salvaguardar o interesse público, uma vez que se trata de um equipamento pertencente a uma entidade pública”.
O que será que a Senhora Ministra entenderá por interesse público:
O interesse em manter o Rivoli com o modelo de utilização actual, generosamente pago pelos contribuintes?
Ou o interesse dos contribuintes, que reclama que situações destas sejam urgentemente corrigidas?
E será que o verdadeiro conflito é com a Autarquia? Não será mais com os contribuintes?

 

Carta aos ocupantes do Rivoli e cidadãos do Porto

Vários dos cidadãos que ocupam o Rivoli nunca poderiam ter ficado em casa! A urgência política chega a casa tarde e a más horas, quando todos dormem. Vários destes cidadãos têm mau sono e às suas insónias se devem muitos textos, filmes, debates, aulas, canções. Quem os conhece, reconhece-o e reconhece-os neste gesto descarado que é exactamente o que se espera de cidadãos responsáveis. Num país passivo e subalterno a todas as formas de poder (miúdas e graúdas), sem nenhuma tradição de protesto, é natural e miserável o espírito rasteiro que define a maior parte dos comentários dos que, beatos e temerosos, se espantam com manifestações que ultrapassem a boca-pequena-em-mesa-de-café. Como disse Brecht, não é uma desgraça, é uma vergonha!
Por estarmos em Paris, não estamos convosco aí, no Piso -1, a defender o espaço público que é um Teatro Municipal. Que o vosso gesto seja braço forte no trabalho da construção cívica e se multiplique por centenas de outros! Também nós amanhã, aqui, estaremos ao lado de outros artistas ocupantes num espaço chamado La Genéral, contra uma expulsão policial ordenada pela Câmara de Paris. Em vez de fazer as malas e sair pianinho, do programa constam manifestações à tarde, filmes à noite, jantar, dormida para todos e pequeno-almoço cedo, antes das boas-vindas à Polícia! Haverá ainda café e ninguém se calará.
Esperamos que a cidade compreenda o que está em discussão e se vos junte, para que o trabalho de uns não seja o descanso dos outros.

António Preto e João Sousa Cardoso

 

Harold Pinter - nobel lecture

 

Fotografias da noite

Um apelo. Simples. Directo.
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Apesar da chuva, música do lado dos Cavalos.
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E música do lado de Magalhães Lemos
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Explicando aos jornalistas a natureza do protesto e da vontade dos manifestantes que desejam que todos os espectaculos cancelados pela presidência da Câmara se continuem a realizar.
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Aqueles a quem a presidência da Camara chama de perigosos são controlados por um único segurança desarmado.
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Mais de 200 pessoas aguentavam noite fora apesar da chuva.
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Fiquem por aí...

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...


Excerto de Cântico Negro de José Régio


Ao Grupo dos Ocupantes do Rivoli:

Vive la Resistence!!!

RIVOLIÇÃO
RIVOLIVRE

 

é cedo para ser tarde
é tarde para ser cedo

Imaginem-se fechados no quarto escuro e porventura meaçados de outras escuridões e obscurantismos. Caídos no caldo de cultura da luta, reencontramos o prazer infantil e enfadado de rilhar a bolacha, o frenesi do não ter horas de dormir e o Verão ser eterno (ainda que relativamente).
Queria, nesta noite de Outubro bem encetado, dizer-vos a beleza do estar aqui. Até os comentários pouco abonatórios me parecem convergir para uma verdade central, embora nalguns deles se sinta aquilo a que minhaavó chamava «ter mais medo que vergonha».
Mais do que tudo abomino os artistas fardados de artistas. Aqui dentro, sem fardas, enfardamos a comida do estarmos juntos, graças a um acaso tão objectivo quanto provocado. «Quem quer bolota atrepa» dizia a mesma anciã. Porque as árvores não se curvam, a menos que...
Amanhã tudo faremos para que um homem possa cantar em cima do palco do andar de cima. Auto-encarcerados nos sabemos sem culto da ofensa. Só mentes verdadeiramente perversas podem imaginar este jogo de pratos na balança da injustiça. Pela parte que nos toca e nos troca, só a ciência do quotidiano poderá devolver-nos conta de medida e medida de conta.
Obrigada a todos aqueles que nos guardam a porta parecida a um parlatório. Obrigada à irregularidade das vozes, ao estranho jogo da rua que nos esconde a morada do poder. Obrigada gente e gente, companheiros de estrada ou visões emolduradas por grades.
Agora: tentar dormir.

 



José Almada Negreiros

Cena do Odio



Ergo-Me Pederasta apupado d'imbecis,
Divinizo-Me Meretriz, ex-líbris do Pecado,
e odeio tudo o que não Me é por Me rirem o Eu!
Satanizo-Me Tara na Vara de Moisés!
O castigo das serpentes é-Me riso nos dentes,
Inferno a arder o Meu Cantar!
Sou Vermêlho-Niagara dos sexos escancarados nos chicotes
dos cossácos!
Sou Pan-Demónio-Trifauce enfermiço de Gula!
Sou Génio de Zaratrusta em Taças de Maré-Alta!
Sou Raiva de Medusa e Danação do Sol!
Ladram-Me a Vida por vivê-La
e só Me deram Uma!
Hão-de lati-La por sina!
Agora quero vivê-La!
Hei-de Poeta cantá-La em Gala sonora e dina
Hei-de Glória desanuviá-La!
Hei-de Guindaste içá-La Esfinge
da Vala pedestre onde Me querem rir!
Hei-de trovão-clarim levá-La Luz
às Almas-Noites do Jardim das Lágrimas!
Hei-de bombo rufá-La pompa de Pompeia
nos Funerais de Mim!
Hei-de Alfange-Mahoma
cantar Sodoma na Voz de Nero!
Hei-de ser Fuas sem Virgem do Milagre,
hei-de ser galope opiado e doido, opiado e doido...
Hei-d' Átila, hei-de Nero, hei-de Eu,
cantar Atila, cantar Nero, cantar Eu!
Sou Narciso do Meu Ódio!
- O Meu ódio é Lanterna de Diógenes,
é cegueira de Diógenes,
é cegueira da Lanterna!
(O Meu Ódio tem tronos d' Herodes,
histerismos de Cleópatra, perversões de Catarina!)
O Meu ódio é Dilúvio Universal sem Arcas de Noé, só
Dilúvio Universal!
e mais Universal ainda:
Sempre a crescer, sempre a subir...
até apagar o Sol!
Sou trono de Abandono, mal-fadado,
nas iras dos Bárbaros meus Avós.
Oiço ainda da Berlinda d'Eu ser sina
gemidos vencidos de fracos,
ruídos famintos de saque,
ais distantes de Maldição eterna em Voz antiga!
Sou ruínas rasas, inocentes
como as asas de rapinas afogadas.
Sou relíquias de mártires impotentes
sequestradas em antros do Vício.
Sou clausura de Santa professa,
Mãe exilada do Mal, Hóstia d'Angústia no Claustro,
freira demente e donzela,
virtude sozinha da cela
em penitência do sexo!
Sou rasto espezinhado d'Invasores
que cruzaram o meu sangue, desvirgando-o.
Sou a Raiva atávica dos Távoras,
o sangue bastardo de Nero,
o ódio do último instante
do Condenado inocente!
A podenga do Limbo mordeu raivosa
as pernas nuas da minh'Alma sem baptismo...
Ah! que eu sinto, claramente,
que nasci de uma praga de ciúmes!
Eu sou as sete pragas sobre o Nilo e a Alma dos Bórgias a
penar!
Tu, que te dizes Homem!
Tu, que te alfaiatas em modas
e fazes cartazes dos fatos que vestes

p'ra que se não vejam as nódoas de baixo!
Tu, qu'inventaste as Ciências e as Filosofias,
as Políticas, as Artes e as Leis,
e outros quebra-cabeças de sala
e outros dramas de grande espectáculo
Tu, que aperfeiçoas sabiamente a arte de matar.
Tu, que descobriste o cabo da Boa-Esperança
e o Caminho Marítimo da índia
e as duas Grandes Américas,
e que levaste a chatice a estas Terras
e que trouxeste de lá mais gente p'raqui
e qu'inda por cima cantaste estes Feitos...
Tu, qu'inventaste a chatice e o balão,
e que farto de te chateares no chão
te foste chatear no ar,
e qu'inda foste inventar submarinos
p'ra te chateares também por debaixo d'água,
Tu, que tens a mania das Invenções e das Descobertas
e que nunca descobriste que eras bruto,
e que nunca inventaste a maneira de o não seres
Tu consegues ser cada vez mais besta
e a este progresso chamas Civilização!
Vai vivendo a bestialidade na Noite dos meus olhos,
vai inchando a tua ambição-toiro
'té que a barriga te rebente rã.
Serei Vitória um dia -Hegemonia de Mim!
e tu nem derrota, nem morto, nem nada.
O Século-dos-Séculos virá um dia
e a burguesia será escravatura
se for capaz de sair de Cavalgadura!
Hei-de, entretanto, gastar a garganta
a insultar-te, ó besta!
Hei-de morder-te a ponta do rabo
e por-te as mãos no chão, no seu lugar!
Ahi! Saltimbanco-bando de bandoleiros nefastos!
Quadrilheiros contrabandistas da Imbecilidade!
Ahi! Espelho-aleijão do Sentimento,
macaco-intruja do Alma-realejo!
Ahi! macrelle da Ignorância!
Silenceur do Génio-Tempestade!
Spleen da Indigestão!
Ahi! meia-tigela, travão das Ascensões!
Ahi! povo judeu dos Cristos mais que Cristo!
Ó burguesia! Ó ideal com i pequeno
Ó ideal ricócó dos Mendes e Possidonios
Ó cofre d'indigentes
Cuja personalidade é a moral de todos!
Ó geral da mediocridade!
Ó claque ignóbil do Vulgar, protagonista do normal!
Ó Catitismo das lindezas d'estalo!
Ahi! lucro do fácil,
cartilha-cabotina dos limitados, dos restringidos!
Ai! dique-impecilho do Canal da Luz!
Ó coito d'impotentes
a corar ao sol no riacho da Estupidez!
Ahi! Zero-barómetro da Convicção!
bitola dos chega, dos basta, dos não quero mais!
Ahi! Plebeísmo Aristocratizado no preço do panamá!
erudição de calça de xadrez!
competência de relógio d'oiro
e correntes com suores do Brasil,
e berloques de cornos de búfalo!
E eu vivo aqui desterrado e Job
da Vida-gémea d'Eu ser feliz!
E eu vivo aqui sepultado vivo
na Verdade de nunca ser Eu!
Sou apenas o Mendigo de Mim-Próprio,
órfão da Virgem do meu sentir.
E como queres que eu faça fortuna
se Deus, por escárnio, me deu Inteligência,
e não tenho sequer, irmãs bonitas
nem uma mãe que se venda para mim?
(Pesam quilos no Meu querer
as salas de espera de Mim.

Tu chegas sempre primeiro...
Eu volto sempre amanhã...
Agora vou esperar que morras.
Mas tu és tantos que não morres...
Vou deixar d'esp'rar que morras
- Vou deixar d'esp'rar por mim!)
Ah! que eu sinto, claramente, que nasci
de uma praga de ciúmes!
Eu sou as sete pragas sobre o Nilo
e a alma dos Bórgias a penar!
E tu, também, vieille-roche, castelo medieval
fechado por dentro das tuas ruínas!
Fiel epitáfio das crónicas aduladoras!
E tu também ó sangue azul antigo
que já nasceste co'a biografia feita!
Ó pajem loiro das cortesias-avozinhas!
Ó pergaminho amarelo-múmia
das grandes galas brancas das paradas
e das Vitórias dos torneios-lotarias
com donzelas-glórias!
Ó resto de cetros, fumo de cinzas!
Ó lavas frias do Vulcão pirotécnico
com chuvas d'oiros e cabeleiras prateadas!
Ó estilhacos heráldicos de Vitrais
despegados lentamente sobre o tanque do silêncio!
Ó Cedro secular
debruçado no muro da Quinta sobre a estrada
a estorvar o caminho da Mala-posta!
E vós também, ó Gentes de Pensamento,
ó Personalidades, ó Homens!
Artistas de todas as partes, cristãos sem pátria,
Cristos vencidos por serem só Um!
E vós, ó Génios da Expressão,
e vós também, ó Génios sem Voz!
ó além-infinito sem regressos, sem nostalgias,
Espectadores gratuitos do Drama-Imenso de Vós-Mesmos!
Profetas clandestinos
do Naufrágio de Vossos Destinos!
E vós também, teóricos-irmãos-gémeos
do meu sentir internacional!
Ó escravos da Independência!
Vós que não tendes prémios
por se ter passado a vez de os ganhardes,
e famintos e covardes
entreteis a fome em revoltas do Mau-Génio
no boémia da bomba e da pólvora!
E tu também, ó Beleza Canalha
Co'a sensibilidade manchada de vinho!
Ó lírio bravo da Floresta-Ardida
à meia-porta da tua Miséria!
Ó Fado da Má-Sina
com ilustrações a giz
e letra da Maldição!
Ó fera vadia das vielas açaimada na Lei!
Ó xale e lenço a resguardar a tísica!
Ó franzinas do fanico
co'a sífilis ao colo por essas esquinas!
Ó nu d'aluguer
na meia-luz dos cortinados corridos!
Ó oratório da meretriz a mendigar gorjetas
p'rá sua Senhora da Boa-Sorte!
Ó gentes tatuadas do calão!
carro vendado da Penitenciária!
E tu também, ó Humilde, ó Simples!
enjaulados na vossa ignorância!
Ó pé descalço a calejar o cérebro!
Ó músculos da saúde de ter fechada a casa de pensar!
Ó alguidar de açorda fria
na ceia-fadiga da dor-candeia!
Ó esteiras duras pra dormir e fazer filhos!
Ó carretas da Voz do Operário
com gente de preto a pé e filarmónica atrás!
Ó campas rasas, engrinaldadas,
com chapões de ferro e balões de vidro!

Ó bota rota de mendigo abandonada no pó do caminho!
Ó metamorfose-selvagem das feras da cidade!
Ó geração de bons ladrões crucificados na Estupidez!
Ó sanfona-saloia do fandango dos campinos!
Ó pampilho das Lezírias inundadas de Cidade!
ó trouxa d'aba larga da minha lavadeira,
Ó rodopio azul da saia azul de Loures!
E vós varinas que sabeis a sal
as Naus da Fenícia ainda não voltaram?!
E vós também, ó moças da Província
que trazeis o verde dos campos
no vermelho das faces pintadas!
E tu também, ó mau gosto
co'a saia de baixo a ver-se
e a falta d'educação!
Ó oiro de pechisbeque (esperteza dos ciganos)
a luzir no vermelho verdadeiro da blusa de chita!
Ó tédio do domingo com botas novas
e música n'Avenida!
Ó santa Virgindade
a garantir a falta de lindeza!
Ó bilhete postal ilustrado
com aparições de beijos ao lado!
E vós ó gentes que tendes patrões,
autómatos do dono a funcionar barato!
Ó criadas novas chegadas de fora p'ra todo o serviço!
Ó costureiras mirradas,
emaranhadas na vossa dor!
Ó reles caixeiros, pederastas do balcão,
a quem o patrão exige modos lisonjeiros
e maneiras agradáveis pròs fregueses!
Ó Arsenal fadista de ganga azul e coco socialista!
Ó saídas pôr-do-sol das Fábricas d'Agonia!
E vós também, ó toda a gente, que todos tendes patrões!
E vós também, nojentos da Política
que explorais eleitos o Patriotismo!
Macrots da Pátria que vos pariu ingénuos
e vos amortalha infames!
E vós também, pindéricos jornalistas
que fazeis cócegas e outras coisas
à opinião pública!
E tu também roberto fardado:
Futrica-te espantalho engalonado,
apoia-te das patas de barro,
Larga a espada de matar
e põe o penacho no rabo!
Ralha-te mercenário, asceta da Crueldade!
Espuma-te no chumbo da tua Valentia!
Agoniza-te Rilhafoles armado!
Desuniversidadiza-te da doutorança da chacina,
da ciencia da matança!
Groom fardado da Negra,
pária da Velha!
Encaveira-te nas esporas luzidias de seres fera!
Despe-te da farda,
desenfia-te da Impostura, e põe-te nu, ao léu
que ficas desempregado!
Acouraça-te de senso,
vomita de vez o morticínio,
enche o pote de raciocínio,
aprende a ler corações,
que há muito mais que fazer
do que fazer revoluções!
Ruína com tuas próprias peças-colossos
as tuas próprias peças colossais,
que de 42 a 1 é meio-caminho andado!
Rebusca no seres selvagem
no teu cofre do extermínio
o teu calibre máximo!
Põe de parte a guilhotina,
dá férias ao garrote!
Não dês língua aos teus canhões,
nem ecos às pistolas,
nem vozes às espingardas!

– São coisas fora de moda!
Põe-te a fazer uma bomba
que seja uma bomba tamanha
que tenha dez raios da Terra.
Põe-lhe dentro a Europa inteira,
os dois pólos e as Américas,
a Palestina, a Grécia, o mapa
e, por favor, Portugal!
Acaba de vez com este planeta,
faze-te Deus do Mundo em dar-lhe fim!
(Há tanta coisa que fazer, Meu Deus!
e esta gente distraída em guerras!)
Eu creio na transmigração das almas
por isto de Eu viver aqui em Portugal.
Mas eu não me lembro o mal que fiz
durante o Meu avatar de burguês.
Oh! Se eu soubesse que o Inferno
não era como os padres mo diziam:
uma fornalha de nunca se morrer...
mas sim um Jardim da Europa
à beira-mar plantado...
Eu teria tido certamente mais juízo,
teria sido até o mártir São Sebastião!
E inda há quem faça propaganda disto:
a pátria onde Camões morreu de fome
e onde todos enchem a barriga de Camões!
Se ao menos isto tudo se passasse
numa Terra de mulheres bonitas!
Mas as mulheres portuguesas
são a minha impotência!
E tu, meu rotundo e pançudo-sanguessugo,
meu desacreditado burguês apinocado
da rua dos bacalhoeiros do meu ódio
co'a Felicidade em casa a servir aos dias!
Tu tens em teu favor a glória fácil
igual à de outros tantos teus pedaços
que andam desajuntados neste Mundo,
desde a invenção do mau cheiro,
a estorvar o asseio geral.
Quanto mais penso em ti, mais tenho Fé e creio
que Deus perdeu de vista o Adão de barro
e com pena fez outro de bosta de boi
por lhe faltar o barro e a inspiração!
E enquanto este Adão dormia
os ratos roeram-lhe os miolos,
e das caganitas nasceu a Eva burguesa!
Tu arreganhas os dentes quando te falam d'Orpheu
e pões-te a rir, como os pretos, sem saber porquê.
E chamas-me doido a Mim
que sei e sinto o que Eu escrevi!
Tu que dizes que não percebes;
rir-te-has de não perceberes?
Olha Hugo! Olha Zola, Cervantes e Camões,
e outros que não são nada por te cantarem a ti!
Olha Nietzche! Wilde! Olha Rimbaub e Dowson!
Cesário, Antero e outros tantos mundos!
Beethoven, Wagner e outros tantos génios
que não fizeram nada,
que deixaram este mundo tal qual!
Olha os grandes o que são estragados por ti!
O teu máximo é ser besta e ter bigodes.
A questão é estar instalado.
Se te livras de burguês e sobes a talento, a génio,
a seres alguém,
o Bem que tu fizeres é um décimo de seres fera!
E de que serve o livro e a ciência
se a experiência da vida
é que faz compreender a ciência e o livro?
Antes não ter ciências!
Antes não ter livros!
Antes não ter Vida!
Eu queria cuspir-te a cara e os bigodes,
quando te vejo apalermado p'las esquinas
a dizeres piadas às meninas,

e a gostares das mulheres que não prestam
e a fazer-lhes a corte
e a apalpar-lhes o rabo,
esse tão cantado belo cu
que creio ser melhor o teu ideal
que a própria mulher do cu grande!
E casaste-te com Ela,
porque o teu ideal veio pegado a Ela,
e agora à brocha limpas a calva em pinga
à coca de cunhas p'ró Cunha examinador
do teu décimo nono filho
dezanove vezes parvo!
(É o caso mais exemplar de Constância e fidelidade
a tua história sexual co'a Felisberta,
desde o teu primogénito tanso
'té ao décimo nono idiota.)
'Té no matrimónio te maldigo, infame cobridor!
Espécie de verme das lamas dos pântanos
que de tanto se encharcar em gozos
o seu corpo se atrofiou
e o sexo elefantizado foi todo o seu corpo!
Em toda a parte tu és o admirador
e em toda a parte a tua ignorância
tem a cumplicidade da incompetência
dos que te falam 'té dos lugares sagrados.
Sim! Eu sei que tu és juiz
e qu'inda ontem prometeste a tua amante,
despedindo-a num beijo de impotente,
a condenação dos réus que tivesses
se Ela faltasse à matinée da Boa-Hora!
Pulha! E és tu que do púlpito
d'essa barriga d'Água da Curia
dás a ensinança de trote
aos teus dezanove filhos?!
Cocheiros, contai: dezanove!!!
Zute! bruto-parvo-nada
que Me roubaste tudo:
'té Me roubaste a Vida
e não Me deixaste nada!
nem Me deixaste a Morte!
Zute! poeira-pingo-micróbio
que gemes pequeníssimos gemidos gigantes
grávido de uma dor profeta colossal.
Zute! elefante-berloque parasita do não presta!
Zute! bugiganga-celulóide-bagatela!
Zute, besta!
Zute, bácoro!!
Zute, merda!!!
Em toda a parte o teu papel é admirar,
mas (caso inf'liz)
nunca acertas numa admiração feliz.
Lês os jornais e admiras tudo do princípio ao fim
e se por desgraça vem um dia sem jornais,
tens de ficar em casa nos chinelos
porque nesse dia, felizmente,
não tens opinião pra levares à rua.
Mas nos outros dias lá estás a discutir.
É que a Natureza é compensadora:
quem não tem dinheiro p'ra ir ao Coliseu
deve ter cá fora razões p'ra se rir.
Só te oiço dizer dos outros
a inveja de seres como eles.
Nem ao menos, pobre fadista,
a veleidade de seres mais bruto?
Até os teus desejos são avaros
como as tuas unhas sujas e ratadas.
Ó meu gordo pelintrão,
água-morna suja, broa do outro v'rao!
Os homens são na proporção dos seus desejos
e é por isso que eu tenho a Concepção do Infinito...
Não te cora ser grande o teu avô
e tu apenas o seu neto, e tu apenas o seu esperma?
Não te dói Adão mais que tu?
Não te envergonha o teres antes de ti

outros muito maiores que tu?
Jamais eu quereria vir a ser um dia
o que o maior de todos já o tivesse sido
eu quero sempre muito mais
e mais ainda muito pr'além-demais-Infinito...
Tu não sabes, meu bruto, que nós vivemos tão pouco
que ficamos sempre a meio-caminho do Desejo?
Em toda a parte o bicho se propaga,
em toda a parte o nada tem estalagem.
O meu suplício não é somente de seres meu patrício
ou o de ver-te meu semelhante,
tu, mesmo estrangeiro, és besta bastante.
Foi assim que te encontrei na Rússia
como vegetas aqui e por toda a parte,
e em todos os ofícios e em todas as idades.
Lá suportei-te muito! Lá falavas russo
e eu só sabia o francês.
Mas na França, em Paris - a grande capital,
apesar de fortificada,
foi assolada por esta espécie animal.
E andam p'los cafés como as pessoas
e vestem-se na moda como elas,
e de tal maneira domésticos
que até vão às mulheres
e até vão aos domésticos.
Felizmente que na minha pátria,
a minha verdadeira mãe, a minha santa Irlanda,
apenas vivi uns anos d'Infância,
apenas me acodem longinquamente
as festas ensuoradas do priest da minha aldeia,
apenas ressuscitam sumidamente
as asfixias da tísica-mater,
apenas soam como revoltas
as pistolas do suicídio de meu pai,
apenas sinto infantilmente
no leito de uma morta
o gelo de umas unhas verdes,
um frio que não é do Norte,
um beijo grande como a vida de um tísico a morrer.
Ó Deus! Tu que m'os levaste é que sabias
o ódio que eu lhes teria
se não tivessem ficado por ali!
Mas antes, mil vezes antes, aturar os burgueses da My
Ireland
que estes desta Terra
que parece a pátria deles!
Ó Horror! Os burgueses de Portugal
têm de pior que os outros
o serem portugueses!
A Terra vive desde que um dia
deixou de ser bola do ar
p'ra ser solar de burgueses.
Houve homens de talento, génios e imperadores.
Precisaram-se de ditadores,
que foram sempre os maiores.
Cansou-se o mundo a estudar
e os sábios morreram velhos
fartos de procurar remédios,
e nunca acharam o remédio de parar.
E inda eu hoje vivo no século XX
a ver desfilar burgueses
trezentas e sessenta e cinco vezes ao ano,
e a saber que um dia
são vinte e quatro horas de chatice
e cada hora sessenta minutos de tédio
e cada minuto sessenta segundos de spleen!
Ora bolas para os sábios e pensadores!
Ora bolas para todas as épocas e todas as idades!
Bolas pròs homens de todos os tempos,
e prà intrujice da Civilização e da Cultura!
Eu invejo-te a ti, ó coisa que não tens olhos de ver!
Eu queria como tu sentir a beleza de um almoço pontual
e a f'licidade de um jantar cedinho
co'as bestas da família.

Eu queria gostar das revistas e das coisas que não prestam
porque são muitas mais que as boas
e enche-se o tempo mais!
Eu queria, como tu, sentir o bem-estar
que te dá a bestialidade!
Eu queria, como tu, viver enganado da vida e da mulher,
e sem o prazer de seres inteligente pessoalmente!
Eu queria, como tu, não saber que os outros não valem nada
p'ra os poder admirar como tu!
Eu queria que a vida fosse tão divinal
como tu a supões, como tu a vives!
Eu invejo-te, ó pedaço de cortiça
a boiar à tona d'água, à mercê dos ventos,
sem nunca saber que fundo que é o Mar!
Olha para ti!
Se te não vês, concentra-te, procura-te!
Encontrarás primeiro o alfinete
que espetaste na dobra do casaco,
e depois não percas o sítio,
porque estás decerto ao pé do alfinete.
Espeta-te nele para não te perderes de novo,
e agora observa-te!
Não te escarneças! Acomoda-te em sentido!
Não te odeies ainda qu'inda agora começaste!
Enioa-te no teu nojo, mastodonte!
Indigesta-te na palha dessa tua civilização!
Desbesunta te dessa vermência!
Destapa a tua decência, o teu imoral pudor!
Albarda te em senso! Estriba-te em Ser!
Limpa-te do cancro amarelo e podre!
Do lazareto de seres burro!
Desatrela-te do cérebro-carroça!
Desata o nó-cego da vista!
Desilustra-te, descultiva-te, despole-te,
que mais vale ser animal que besta!
Deixa antes crescer os cornos que outros adornos da
Civilização!
Queria-te antes antropófago porque comias os teus
– talvez o mundo fosse Mundo
e não a retrete que é!
Ahi! excremento do Mal, avergonha-te
no infinitamente pequeno de ti com o teu papagaio:
Ele fala como tu e diz coisas que tu dizes
e se não sabe mais é por tua culpa, meu mandrião!
E tu, se não fossem os teus pais,
davas guinchos, meu saguim!
- Tu és o papagaio de teus pais!
Mas há mais, muito mais
que a tua ignorância-miopia te cega.
Empresto-te a minha Inteligência.
Vê agora e não desmaies ainda!
Então eu não tinha razão?
P'ra que me chamavas doido
quando eu m'enjoava de ti?
Ah! Já tens medo?!
Porque te rias da vida
e ias ensuorar as vrilhas nos fauteuils das revistas
co'as pernas fogo de vistas
das coristas de petróleo?
Porque davas palmas aos compéres e actorecos
pelintras e fantoches
antes do palco, no palco e depois do palco?
Ora dize-Me com franqueza:
Era por eles terem piada?
Então era por a não terem
Ah! Era p'ra tu teres piada, meu bruto?!
Porque mandaste de castigo os teus filhos p'r'ás Belas-Artes
quando ficaram mal na instrução primária?
Porque é que dizes a toda a gente que o teu filho idiota
estuda p'ra poeta?
Porque te casaste com a tua mulher
se dormes mais vezes co'a tua criada?
Porque bateste no teu filho quando a mestra
te contou as indecências na aula?

Não te lembras das que tu fizeste
com a própria mestra de moral?
Ou queres tu ser decente,
tu, que tens dezanove filhos?!
Porque choraste tanto quando te desonraram a filha?
Porque lhe quiseste matar o amante?
Não achas isto natural? Não achas isto interessante?
Porque não choraste também pelo amante?...
Deixa! Deixa! Eu não te quero morto com medo de ti-próprio!
Eu quero-te vivo, muito vivo, a sofrer!
Não te despetes do alfinete!
Eu abro a janela pra não cheirar mal!
Galopa a tua bestialidade
na memória que eu faço dos teus coices,
cavalga o teu insecticismo na tua sela de D. Duarte!
Arreia-te de Bom-Senso um segundo! peço-te de joelhos.
Encabresta-te de Humanidade
e eu passo-te uma zoologia para as mãos
p'ra te inscreveres na divisão dos Mamíferos.
Mas anda primeiro ao Jardim Zoológico!
Vem ver os chimpanzés! Acorpanzila-te neles se te ousas!
Sagra-te de cu-azul a ver se eles te querem!
Lá porque aprendeste a andar de mãos no ar
não quer dizer que sejas mais chimpanzé que eles!
Larga a cidade masturbadora, febril,
rabo decepado de lagartixa,
labirinto cego de toupeiras,
raça de ignóbeis míopes, tísicos, tarados,
anémicos, cancerosos e arseniados!
Larga a cidade!
Larga a infâmia das ruas e dos boulevards
esse vaivém cínico de bandidos mudos
esse mexer esponjoso de carne viva
Esse ser-lesma nojento e macabro
Esse S ziguezague de chicote auto-fustigante
Esse ar expirado e espiritista...
Esse Inferno de Dante por cantar
Esse ruído de sol prostituído, impotente e velho
Esse silêncio pneumónico
de lua enxovalhada sem vir a lavadeira!
Larga a cidade e foge!
Larga a cidade!
Vence as lutas da família na vitória de a deixar.
Larga a casa, foge dela, larga tudo!
Nem te prendas com lágrimas, que lágrimas são cadeias!
Larga a casa e verás - vai-se-te o Pesadelo!
A família é lastro, deita-a fora e vais ao céu!
Mas larga tudo primeiro, ouviste?
Larga tudo!
– Os outros, os sentimentos, os instintos,
e larga-te a ti também, a ti principalmente!
Larga tudo e vai para o campo
e larga o campo também, larga tudo!
– Põe-te a nascer outra vez!
Não queiras ter pai nem mãe,
não queiras ter outros nem Inteligência!
A Inteligência é o meu cancro
eu sinto-A na cabeça com falta de ar!
A Inteligência é a febre da Humanidade
e ninguém a sabe regular!
E já há Inteligência a mais pode parar por aqui!
Depois põe-te a viver sem cabeça,
vê só o que os olhos virem,
cheira os cheiros da Terra
come o que a Terra der,
bebe dos rios e dos mares,
- põe-te na Natureza!
Ouve a Terra, escuta-A.
A Natureza à vontade só sabe rir e cantar!
Depois, põe-te a coca dos que nascem
e não os deixes nascer.
Vai depois pla noite nas sombras
e rouba a toda a gente a Inteligência
e raspa-lhos a cabeça por dentro

co'as tuas unhas e cacos de garrafa,
bem raspado, sem deixar nada,
e vai depois depressa muito depressa
sem que o sol te veja
deitar tudo no mar onde haja tubarões!
Larga tudo e a ti também!
Mas tu nem vives nem deixas viver os mais,
Crápula do Egoísmo, cartola d'espanta-pardais!
Mas hás-de pagar-Me a febre-rodopio
novelo emaranhado da minha dor!
Mas hás-de pagar-Me a febre-calafrio
abismo-descida de Eu não querer descer!
Hás-de pagar-Me o Absinto e a Morfina
Hei-de ser cigana da tua sina
Hei-de ser a bruxa do teu remorso
Hei-de desforra-dor cantar-te a buena-dicha
em águas fortes de Goya
e no cavalo de Tróia
e nos poemas de Poe!
Hei-de feiticeira a galope na vassoura
largar-te os meus lagartos e a Peçonha!
Hei-de Vara Magica encantar-te Arte de Ganir
Hei-de reconstruir em ti a escravatura negra!
Hei-de despir-te a pele a pouco e pouco
e depois na carne-viva deitar fel,
e depois na carne-viva semear vidros,
semear gumes,
lumes,
e tiros.
Hei-de gozar em ti as poses diabólicas
dos teatrais venenos trágicos do persa Zoroastro!
Hei-de rasgar-te as virilhas com forquilhas e croques,
e desfraldar-te nas canelas mirradas
o negro pendão dos piratas!
Hei-de corvo marinho beber-te os olhos vesgos!
Hei-de bóia do Destino ser em brasa
e tua náufrago das galés sem horizontes verdes!
E mais do que isto ainda, muito mais:
Hei-de ser a mulher que tu gostes,
hei-de ser Ela sem te dar atenção!
Ah! que eu sinto claramente que nasci
de uma praga de ciúmes.
Eu sou as sete pragas sobre o Nilo
e a Alma dos Bórgias a penar!...



......"UMA PANCADA NOS OLHOS FAZ VER".....



STOPART

 

Álvaro de Campos

Estou Cansado




Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.

O RIVOLI É DE TODOS E PARA TODOS

UMA PORTA ABERTA PARA A ARTE QUE NOS QUEREM FECHAR

....."UMA PANCADA NOS OLHOS FAZ VER"....


STOPART

 

23h40

Estamos às escuras.
Acabaram de nos deligar as luzes dos acessos, do foyer e das casas de banho (temos luz no auditório).
Estamos fechados no piso -1 sem possibilidade de sair (a nosso pedido).

 

Alterações dos textos

Após contacto telefónico com o exterior do Teatro Rivoli, foi-nos facultada a informação de que alguns dos textos e comentários que constam no Blog No Teatro Rivoli foram adulterados.

Tal facto deve-se à maioria dos leitores partilharem do mesmo username e password, podendo assim proceder a qualquer alteração dos textos préviamente escritos.

O Grupo de Ocupantes do Rivoli

16 outubro 2006 

Os fins não justificam os meios

Escrevi há pouco este post. Verifiquei posteriormente que ele foi apagado. Tento novamente ultrapassar algum eventual "problema técnico".
--
Já publiquei a minha opinião e alguns apontadores n'A Baixa do Porto. Não consigo perceber a lógica desta forma de protesto. Os fins não justificam os meios. Rui Rio, sem o merecer, sai a ganhar sem precisar de se mexer.
--
Tiago Azevedo Fernandes
A Baixa do Porto

 

o alargar dos horizontes...

Custa-me ver a leviandade com que hoje, em pleno século XXI, em Portugal se atacam os profissionais de outras áreas sem que se tenha a menor noção do que realmente está em questão. Simplesmente por manipulação dos políticos.

"(...)o produto artístico, é um objecto que confronta o seu destinatário com o inesperado, o inaudito, o alargar dos horizontes, o derrubar das fronteiras do possível." escrevem os manifestantes no seu comunicado.

Não é isto o que uma sociedade moderna deve procurar para a sua evolução?
É uma mudança de mentalidade a única coisa que pode tirar o país da crise. Podemos aumentar impostos, construir aeroportos ou realizar corridas de automóveis mas, será que isso contribui em algo para a mudança de mentalidades?
Será que, fomentando a proliferação de uma cultura global, chegaremos a algum lado?
Afinal a evolução não é o fruto do confronto de ideias?
Porque é que aqueles que criticam as acções levadas a cabo pelos que se preocupam com a cultura o fazem de forma fácil e baixa? Porque é que não respondem às questões por eles levantadas?
Terão alguma noção do que estamos realmente a falar?

Se pudesse estaria dentro do Rivoli convosco.

FM

 

Porto, 16 de Outubro de 2006


À atenção da Culturporto


Assunto: Realização do concerto de Luís Represas
a favor da investigação da Paramiloidose,
terça-feira, dia17 de Outubro
no Grande Auditório do Rivoli



Exmo Sr. Dr. António Teixeira

profundamente inquietos quanto à infundada utilização da nossa presença no Rivoli Teatro Municipal no sentido de inviabilizar a realização do concerto de Luís Represas em favor da investigação da Paramiloidose e sinceramente empenhados no efectivo cumprimento desse programa de solidariedade social, vimos por este meio fazer a V. Excelência uma proposta que desvanecerá por completo qualquer receio quanto à ocorrência de desacatos e distúrbios cometidos pelo nosso grupo.
Para evitar qualquer comunicação física entre o lugar que ocupamos e o piso onde o concerto vai ter lugar, propomos que seja fechada a porta de comunicação que separa os dois espaços, ficando pois o grupo de ocupantes confinado ao pequeno auditório (sala, lobby, sanitários masculinos, camarim e saída gradeada para a rua).
Na esperança de que esta proposta encontre o melhor acolhimento por parte de V. Excelência e do Sr. Vereador, informamos a Culturporto e o executivo da CMP de que enviamos cópia desta carta à comunicação social e ficamos a aguardar o vosso contacto.
Sem mais assunto, subscrevemo-nos respeitosamente
O Grupo de Ocupantes do Rivoli

 

Porto, 16 de Outubro de 2006



Assunto: Comunicado da Direcção da Culturporto
acerca do acto de ocupação do Pequeno Auditório do Teatro Municipal
por um grupo de cidadãos indignados


À atenção da Culturporto


Exmo Sr. Dr. António Teixeira


Em resposta ao vosso comunicado de 16 de Outubro – do qual tomámos conhecimento durante a tarde – vimos pelo presente meio esclarecer os seguintes aspectos:
1) Muito embora o acto de insubmissão por nós praticado tenha ocorrido na sequência da representação da peça CURTO CIRCUITO, levada à cena pelo Teatro Plástico, o gesto de protesto em questão envolve a responsabilidade de todos quantos neles participaram, não se tratando pois de um acto apenas da responsabilidade do Teatro Plástico, mas sim de uma iniciativa livremente assumida por todos os elementos do grupo de ocupantes.
2) Tendo o grupo de ocupantes tomado todas as precauções ao seu alcance no sentido de tornar claro que o seu gesto era de todo pacífico e não agressivo, consideramos ultrajante a alegação de perigosidade com que qualificam a actuação do nosso grupo.
3) Tendo em conta que, logo no início da acção de ocupação, foi distribuído um comunicado onde se encontram especificadas as nossas reivindicações, afigura-se-nos inadmissível a alegação de que as finalidades do nosso gesto são desconhecidas. Se, contactados por um assessor do vereador da cultura, logo pela manhã, lhe não expusemos as nossas reivindicações, foi porque não fomos sobre isso questionados – o que nos levou a supor que o nosso interlocutor estaria ao corrente…
4) Sendo certo que os trabalhadores do Rivoli manifestaram, ao longo de todo o processo de ocupação, inteiro à vontade no convívio com o nosso grupo – atitude tanto mais normal quanto alguns deles são conhecidos, amigos pessoais e até íntimos de alguns elementos do grupo – temos como postura de pura calúnia a alegação de que foram impedidos de penetrar no seu local de trabalho por motivo de necessidade de protecção física das suas pessoas.
5) Por último, não podemos deixar de exprimir o nosso mais vivo repúdio pela acusação de estarmos apostados em impedir o concerto com fins de solidariedade social agendado para terça-feira, dia 17, acusação tanto mais destituída de fundamento quanto, por um lado, só ocupamos o espaço do pequeno auditório, por outro, todos os trabalhadores do Rivoli reiteradamente afirmaram a sua disposição de entrar ao serviço mal tal lhes fosse autorizado pela entidade patronal. Esta última alegação prova à saciedade a má fé do comunicado emitido pela Culturporto e o carácter eminentemente chantagista do seu tom e conteúdo.
6) Muito embora se trate de um assunto de outra natureza, não podemos deixar de expressar o nosso pesar pelo comentário que o vosso comunicado tece sobre a carreira do espectáculo CURTO-CIRCUITO, comentário que denota uma clara ignorância quanto ao dispositivo de apresentação pelo qual o Teatro Plástico optou e quanto ao protocolo que o encenador tentou (e conseguiu) estabelecer com o espectador.

Sem mais assunto, subscrevemo-nos respeitosamente

O Grupo de Ocupantes do Rivoli Teatro Municipal

 

Não comento a acção de protesto ou a própria política (?) cultural da câmara. Discordo é da opção cobarde de muita gente que sabe criticar à boca cheia, de oferecer umas palmadas e apelidar de gentinha aos outros que tentam lutar de maneira que sabem ou podem... E não têm coragem sequer de assinar o nome. É esta gente que faz o Portugal que somos hoje. Um Portugal de gente pusilânime, que vive de criticar o outro, da pequena inveja e da maledicência mas que depois se rebaixa sempre perante os poderes instituídos e não tem coragem de assumir aquilo que pensa ou diz de corpo inteiro.

Eu até diria que tenho pena. Se não me provocassem antes uma certa náusea...

Rui Cunha

 

O Rivoli é do povo, não é de Moscovo

A Câmara Municipal do Porto, legítima representante dos cidadãos portuenses, decidiu concessionar a gestão do Teatro Municipal Rivoli a privados. Agora, privados que não mostraram capacidade nem de dinamizar o Rivoli enquanto ele estava sob gestão pública, nem de concorrer ao concurso de concessão da gestão do teatro, tentam desesperadamente salvar, pela algazarra e pelo confusionismo, a sua fatia no bolo de 11 milhões de euros com que a CMP subsidiou o Rivoli no último mandato.

Tudo em nome do serviço público, claro. Esquecem-se, porém, que o serviço público é antes de mais um serviço ao público, e não um direito a servir-se do dinheiro público. E pode perfeitamente ser garantido por privados, em regime de concessão. No caso do Rivoli, eis o que está previsto para o regime de concessão:

"Assim, a CMP cede o Pequeno e o Grande Auditório e os equipamentos técnicos enquanto a autarquia assume a limpeza e a manutenção do edifício e ainda as despesas da água e luz, segundo a média de consumo dos últimos três anos. A CMP recebe ainda 5% do valor de bilheteira e, em contrapartida, a companhia fica obrigada a fazer um mínimo de 300 dias de espectáculo, onde devem estar incluídas pelo menos duas grande produções e dois espectáculos infantis. O Pequeno Auditório deverá ser dedicado a produções de carácter experimental, ficando assim salvaguardado apoio às pequenas companhias, e os actores devem ser, preferencialmente, Área Metropolitana do Porto. A companhia deverá ter ainda uma vertente dedicada ao ensino das artes performativas com alunos da Área Metropolitana do Porto, devendo integrar os melhores na companhia. Quanto aos trabalhadores, deve ser dada preferência aos que já integravam a Culturporto. A companhia terá ainda que facultar anualmente 2500 bilhetes aos alunos do ensino básico do Porto, garantindo assim que, pelo menos uma vez por ano, essas crianças assistam a uma peça de teatro."


Pelos vistos, isto não basta para a rapaziada do Teatro Plástico. Preferem continuar a servir-se directamente do bolso sem fundo do contribuinte. Pois é altura de lhes dizer claramente: acabou-se a mama!

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post originalmente publicado aqui.

 

Quando, alguns pais preocupados com a falta de condições nas escolas, as fecham a cadeado, ninguém os acusa de palhaços, mimados, ou outras falhas na argumentação.
Pois aqui também é dos nossos filhos que se trata. Sem teatros municipais bem podem acabar com as escolas de teatro, de dança, de cinema etc, etc. Ou será que a vossa prole também padece da vossa falta de imaginação, esperemos que não.
Mamãe

 

O Rivoli é nosso!

Ponto 1: Aquilo que se está a passar no Rivoli é uma demonstração absolutamente legítima, da iniciativa de cidadãos cuja legitimidade não pode ser posta em causa sem que se caia no ridículo. Talvez haja quem não perceba, mas todos nós temos legitimidade para dizermos o que pensamos e intervirmos quando achamos importante, indispensável. Sem que com isso estejamos a totalizar opiniões.
Ponto 2: É pena que o anúncio, há meses, da infame privatização da gestão do Rivoli não tenha abalado de outra forma uma cidade tão orgulhosa de si.
Ponto 3: Como dizia o outro, numa cidade onde não há um teatro municipal, eu não quero viver.
Ponto 4: É notável como um político pode ver uma cidade esvair-se e nada fazer (há muitas responsabilidades que o precedem, mas toda a sua gestão acéfala, apolítica no verdadeiro sentido do termo - naquele que nos mostra como a ignorância arrogante dá votos - vai toda num só e mesmo sentido).
Ponto 5: Agradeço, enquanto cidadão do Porto, a quem decidiu fazer esta ocupação e a fez! Não estou no Rivoli, dentro ou fora, porque estou em Barcelona a trabalhar para partilhar com outras pessoas inteligentes e cidadãs, que falam outras línguas, um exemplo da criação artística contemporânea portuguesa.
Ponto 6: Pois é, a criação artística contemporânea portuguesa existe mesmo, para nossa honra e prazer, mesmo que os poderes públicos sejam amblíopes, mesmo que o discurso terraplanador do pragmatismo económico (aquele que nos quer convencer de que somos todos uma merda duns improdutivos, para melhor viver da nossa produtividade e deixar-nos a comer os restos que ainda haja) goste de criar confusão entre alhos e bogalhos e ficar a perguntar quem faz melhor as aldrabices do la féria: o la féria ou o la féria?
Vosso
José Luís Ferreira

 

Se o que se passa no Rivoli é de facto preocupante, se privatizar um espaço público deve imperativamente ser alvo de debate público, e se o público do Porto tem direito a saber o que se passa, não me parece questionável.

O que me parece questionável é este tipo de atitude. Pretensiosismo? Chamar a atenção? Não sei. Já ninguém tem 18 anos. Estão a colocar-se à frente de outras companhias, de outras pessoas, de outros artistas que precisam do próprio espaço do Rivoli para as suas actuações, e isso é fazer precisamente aquilo contra o qual o Teatro Plástico se diz contra.

Pedro Cid